E não é por não ter as médias necessárias. Kaelin é uma pessoa não binária e, por isso, não pode fazer a candidatura ao ensino superior ou abrir uma conta no banco, onde é obrigatório responder com M ou F quando pede o marcador de sexo registado nos papéis requeridos.
Kaelin, de 17 anos, e o seu pai Keith Farnish iniciaram uma campanha no Reino Unido para mudar os dados pedidos pelos bancos para abrir uma conta, já que as aplicações online pedem necessariamente que quem abra a conta bancária se identifique como homem ou mulher. Kaelin identifica-se como uma pessoa genderqueer e não-binária.
Ao Buzzfeed, Kaelin e Keith contam que têm ido de banco em banco para encontrar um único que lhes permita criar uma conta bancária sem a necessidade de marcar uma das caixas.
“Quando preenches algo e não te identificas como homem ou mulher e apenas vês essas duas caixas de opção, não te revês nisso“, explica Keith. “Não existes. Isso deve doer e é o que me deixa chateado. Não há razões para isso, não precisava ser assim”.
Esta demanda faz parte da “missão” de reconciliar todos os documentos legais de Kaelin – que utiliza os pronomes neutros “they”, “their” e “them”, com a sua identidade de género. O género neutro, tal como em Portugal, não está previsto na lei britânica. Kaelin tem uma conta com o nome correspondente ao género que lhe foi designado à nascença e que entretanto foi alterado no registo civil.
Começou assim a busca por um banco que não pedisse obrigatoriamente um marcador de sexo registado na documentação para criação de uma conta, para que, assim, pudesse fazer a transferência. Começaram pelo Co-Operative Bank, onde o seu pai tinha já conta.
“A aplicação online diz homem ou mulher”, explica Keith, “e tem os títulos standard [genderizados] como Mr., Mrs., Miss, etc. Muitas pessoas trans, binárias ou não binárias, preferem o título [neutro] Mx., porque não denota um género, mas não existia como opção”. Foi então que Kaelin tomou a iniciativa.
“Telefonei-lhes”, conta Kaelin ao Buzzfeed News “e disseram-me que voltariam a entrar em contato comigo em duas semanas, porque outra pessoa se tinha queixado do mesmo. Mas não voltaram a contatar-me”. Keith interveio depois do silêncio por parte do banco.
“Fiz uma queixa formal”, diz Keith, “recebi uma carta do Co-op que basicamente dizia que iam gastar dinheiro [em mudar isto] então que não o iriam fazer”.
Kaelin e Keith abandonaram a possibilidade de abrir a conta bancária no Co-op. Um outro banco respondeu-lhes que por telefone poderiam marcar uma das caixas inicialmente e depois retirá-la, apenas não o poderiam fazer online. Keith conta que “muitas pessoas tentam fazer isto e ir por portas travessas, fazer algum barulho e eventualmente conseguir, mas não é assim que deveria funcionar. Isto não é igualdade“.
“Tentámos o HSBC, Santander, Halifax, TSB, Lloyds, todos pediam que o género fosse feminino ou masculino. Porque é que eles pedem essa informação, afinal? É assim tão importante para os bancos? Há outras formas de identificar as pessoas“.
Somente o Royal Bank of Scotland, onde Kaelin tinha a conta antiga, permitia uma aplicação sem menção ao sexo registado, mas ainda assim não permitia Mx. como título. Kaelin lamenta que toda esta situação seja “um lembrete. É um lembrete que somos diferentes, mas eu não acredito que seja particularmente diferente das outras pessoas, apenas não caibo nos conceitos de género feminino ou masculino, estou à deriva no meio. Ir aos websites [dos bancos] e ver isto é desanimador. Até pessoas que ainda não compreendem o conceito de não binarismo ou que ainda não conheceram ninguém não binário sabem que as pessoas trans existem“.
A batalha para abrir uma conta bancária não é a única que Kaelin trava neste momento. Aos 17 anos e a preparar-se para integrar o ensino superior britânico em Setembro, Kaelin ainda não se pôde matricular.
No sistema de inscrição no ensino superior, UCAS, “tens de escolher feminino ou masculino”, explica Kaelin sobre o processo de inscrição. “Queixei-me na minha escola, que entrou em contacto [com a UCAS] e enviei-lhes uma série de emails” que caíram em saco roto.

Keith contactou igualmente a UCAS com uma estratégia diferente – reescreveu o código da aplicação. “Levou-me um minuto para criar uma terceira opção. Enviei-lhes de volta e disse ‘é assim que deveria ser’”, mas “basicamente a UCAS respondeu ‘não o vamos fazer, é muito difícil’”. A aplicação permite agora o título Mx. (lido “mix”) mas continua a obrigar à seleção de género masculino ou feminino.
Para Keith Farnish, tentar derrubar estes obstáculos é tão-somente o seu dever como pai e considera que este não é um caso “de vida ou morte, mas definir uma identidade e sentir-se confortável nessa identidade é, muitas das vezes“. E conclui: “tudo o que meu filhe faz, eu apoio e sobretudo algo tão fundamental como a sua identidade – é o que somos! Como posso negar-lhe isso? Como posso não querer defender a sua identidade até às últimas consequências? Gostaria que Kaelin fosse viste como uma pessoa e não fosse julgade por quem é”.


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