Shane Pereira, pessoa genderqueer e pansexual, é natural de Abrantes e estudou jornalismo no Instituto Politécnico de Tomar. Trabalhou no jornal i e colabora pontualmente com diferentes meios de comunicação. É ativista feminista e ambientalista, fazendo parte dos órgãos sociais da Ação Pela Identidade – API.
Sabemos que o nosso trabalho é recompensado quando acontecem coisas como a que aconteceu dia 17 de Dezembro, aquando do visionamento de imprensa do filme The Danish Girl, a ser comercializado em Portugal com o título “A Rapariga Dinamarquesa”. Ao chegar aos cinemas Alvaláxia, dei o nome e informei que vinha como representante da Ação Pela Identidade – API, para ter de resposta um sorridente “não sabia que vocês vinham, têm feito um bom trabalho!”.
Um aparte antes de começar a falar no filme propriamente dito. The Danish Girl é um filme feito por cis, para cis, e passa-se nos anos 20 – analisar este filme do ponto de vista trans é um bocado difícil. Até porque, apesar da película estar a ser comercializada como “a primeira pessoa trans dinamarquesa”, de acordo com a romance escrito por David Ebershoff tudo aponta de que Lili Elbe fosse não trans, mas sim a primeira pessoa intersexo submetida a cirurgia urogenital correctiva. Em The Danish Girl, este facto é subexplorado surge muito de relance apenas quando Lili, ainda como Einar Wegener, tem fortes hemorragias nasais e cólicas praticamente a título mensal.

A verdade é que ainda se estão a dar pequenos passos na visibilidade trans no cinema e, sobretudo, em séries televisivas – e este filme, ao optar por apontar o foco a Lili como mulher trans, invisibiliza por completo a variação intersexo de Elbe. E ao optar por um homem cis – Eddie Redmayne, anteriormente oscarizado pelo papel em A Teoria de Tudo onde interpretou Stephen Hawking – essa invisibilização torna-se ainda mais marcada.
Chega a ser mesmo flagrante que Hollywood repita a proeza: Um homem able a interpretar uma pessoa com Esclerose Lateral Amiotrófica. O mesmo homem, cis, a interpretar uma pessoa intersexo – e novamente, um forte candidato aos Óscares. De sublinhar que a actriz Nicole Kidman fora inicialmente apontada para o papel de Lili Elbe. Não faria mais sentido?
Mais macabro ainda é o facto da enfermeira de Lili ser interpretada por Rebecca Root, uma actriz trans. Sendo Redmayne um de muitos actores em Hollywood a interpretar uma personagem não-cis, Root é provavelmente uma das primeiras actrizes trans no papel de uma personagem cis, ainda que por um minuto. Mais um ponto para a invisibilidade trans.

Afinal, 2015 foi um ano de cis-hetero-branquização cinematrográfica. Vejamos os exemplos mais que debatidos de As Sufragistas e Stonewall, este último alvo de boicote por colocar um homem branco cis no lugar das mulheres trans e drag queens negras na frente dos protestos de Stonewall, branqueando por completo um dos marcos da história LGBT.
Shane Pereira


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